
E, por ironia do destino, coube a mim fazer a cobertura do rebaixamento do Guarani para a terceira divisão. E dizer que caímos como homens. E lamentar que, apesar dos 5x1 em cima do Vila Nova, a combinação de resultados não evitou a tragédia. De nada adiantou. À queda seguiu-se em Campinas um silêncio sepulcral. Apenas rojões alvi-negros espocam em diversos pontos da cidade. E eu indo embora a pé, começa a chover. Cara, como eu estava melancólico. Eu ali, descendo o Viaduto Cury naquela solidão, ensopado da cabeça aos pés, escutando os fogos pontepretanos. E aí me ocorreu de entrar num buteco imundo que fica na José de Alencar e pedir um rabo de galo e olhar bem na cara do China, que é pontepretano histórico, e dar a sentença:
- Vocês ainda vão sentir a nossa falta. Porque nós somos a outra ponta da ferradura. Você pode imaginar a vida sem o dérbi? Uma vida sem Guarani x Ponte Preta é inconcebível. Inconcebível, entendeu bem?
Dito isto, virei o copo e segui meu rumo, desconsolado que só. Terceira divisão, eu não acredito - repetia a mim mesmo. Bastava não ter perdido aquele pênalti no último minuto, na partida contra o Remo. Ou então ter evitado o gol de empate do Brasiliense, aos 48 do segundo tempo. Bastava um ponto e nada mais.
O futebol nos leva a pensar na vida e em como são frágeis as relações e todas as coisas. De repente deixamos de dizer uma palavra na hora certa e pronto. Por causa de um detalhe jogamos fora uma história. Também nos vemos na zona do rebaixamento. E sair dela não é mole. Feito meu melhor amigo, por sinal pontepretano, que sumiu de repente, magoado, ofendido, por uma besteira que acaba tomando dimensões gigantescas. Tipo, eu perco um pênalti hoje e acabo rebaixado dois meses depois, feito futebol. Aí por mais que você venha a jogar bem no último jogo, já era. E vai tentar explicar para o amigo ou para a mulher amada que você caiu como homem.
Inagaki falou também desse amor ingrato. E ontem, ao ouvirem a fatídica notícia, Edu Goldenberg, Simas e Pratinha fizeram um brinde em minha homenagem, no butiquim Rio-Brasília. Não tem preço que pague uma coisa dessas. Coisa proporcionada pelo amor que o futebol dissemina entre os homens, unidos por laços de solidariedade que passam por cima de bandeiras, agremiações e torcidas organizadas.
Não posso ser otimista quanto ao futuro. Mas para sempre ficará em mim a memória do primeiro dia em que pisei no Brinco de Ouro e vi jogar João Paulo pela ponta-esquerda. Naquela época ainda se usava falar ponta-esquerda, vejam só. Aquele mulato baixo, metido naquele uniforme verde e branco, driblando como quem brinca, mostrando-me que o circo também era possível na idade adulta. Em algum lugar no tempo sobreviverá este Guarani grande. Em algum país imaginário (Pindorama?) ele reinará absoluto. Ao menos dentro de mim sobreviverá esta melancólica utopia.
10 comentários:
Bruno, querido, solidarizo-me, incondicionalmente, com os bugrinos e sei a seriedade do que você está passando. Quando o Botafogo caiu para a segundona, peregrinei como um Zumbi pela rua Mem de Sá, no Centro do Rio, com uma dor desconsolada. Nesses momentos, em que um brinde solidário vale mais que cem palavras, recordo-me , apenas, da máxima do Sobrenatural de Almeida, que dizia que só os homens e os times que sucumbiram ao covil das catacumbas mereciam a paixão das mulheres e das torcidas.
Forte abraço.
Pois é... se a Portuguesa não tivesse marcado um pênalti aos 44 do segundo tempo, meu time não teria caído... mas o meu texto só sai amanhã lá no blog... beijo, querido.
Bruno, eu nem sabia que existia terceira divisão...
Que saudades do tempo em que os times tinham ponta-direita e ponta-esquerda...
Bruno véio de guerra,
Tua tristeza deveria ser inversamente proporcional à minha alegria pelo São Paulo. Mas não é. A tristeza é muito mais forte, como sempre.
Muito obrigado pela dica do blog na sua coluna.
Valeu !
Simas: Obrigado, querido! E não importa que estejamos na terceira divisão. Não Passarão!
Luciana: Eu não te disse que Paysandu não era nome de time?
Viven: Não sapateia no meu pobre coração...
Coelho: E nosso chopp, malandro?
Arnaldo: É isso aí. Tristeza não tem fim. Felicidade sim.
Bruno: e como se não bastasse o rebaixamento do teu Guarani, ontem foi a vez da Ponte ruir, como o viaduto.
Eis aí a prova cabal da babaquice que é - e que foram os fogos de anteontem - comemorar a desgraça alheia. O que fizeram os pontepretanos ontem, hã?
Pobre Campinas, com seus dois expoentes rebaixados.
Mas não passarão, malandro!
E o brinde foi, de fato, um troço bonito, espontâneo e - digo em nome da precisão - iniciativa do Simão.
Já botei no ar meu desabafo ludopédico, Bruno. Na vitória ou na derrota, hoje e sempre Guarani!
Brunão, a vida continua!
Cara
Tou feliz pelo meu São Paulo, mas não dá pra negar a poesia dessa crônica e a do Inagaki.
Abração
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