Quarta-feira, Maio 28, 2008

MUDAMOS PARA MELHOR ATENDÊ-LOS:
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Segunda-feira, Maio 26, 2008

FIM

Caros amigos,
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Este blog chega hoje ao fim. A decisão é irrevogável. Não vou, porém, deletar os arquivos. Eles permanecerão no ar, para quem quiser matar a saudade dos textos antigos.
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Sei que, durante todo esse tempo em que o Pátria Futebol Clube existiu, acumulei leitores fiéis. Poucos, mas bons. O blog me deu muitas alegrias. Através dele conheci pessoas ótimas. De algumas me tornei amigo.
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Quando criei o Pátria, o fiz com uma única intenção: escrever sobre assuntos que, geralmente, não posso escrever no jornal. Assuntos que me interessam e que, quero crer, interessam a muitas pessoas. Cumpri meu objetivo.
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O nome do blog é uma homenagem ao time de futebol amador mais antigo de Campinas – o Pátria Futebol Clube – cuja sede, há muitos anos, é um botequim localizado próximo à minha casa.
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Neste botequim, antigos jogadores, torcedores e árbitros de cabelos brancos se reunem todos os dias para tomar cerveja, bater papo e recordar as glórias passadas, entre troféus empoeirados e fotografias amarelecidas nas paredes. Este era o clima que tentei empregar ao blog – uma atmosfera de clube e confraria, que resiste bravamente em meio a um mundo que teima em apodrecer nossos melhores sentimentos. Não sei se consegui, mas tentei.
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Pátria também é um nome forte. Uma palavra de que gosto muito. Ela resume uma idéia de nação. E explica o meu gosto por falar de nossas coisas, de nossa gente e de nossa cultura. Quis que o meu blog fosse essencialmente brasileiro. O "Futebol Clube" indica explicitamente minha adesão ao Brasil. O nome do blog, portanto, não se resume à homenagem ao meu boteco de fé. Antes, vê no boteco a metáfora da nação solidária que poderíamos ter sido e que ainda luta para existir, no seio deste magnífico povo.
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O fim do blog tem um motivo. Pelo menos neste espaço, tenho a sensação de já ter dito tudo o que eu queria ou poderia dizer. Há textos que me arrependo de ter publicado, mas não acho justo apagá-los. Para algumas pessoas, eles serviram. Além disso, o número crescente de visitas vinha me forçando a escrever sem vontade, apenas para atualizar o blog – algumas vezes publiquei qualquer coisa, por obrigação e sem muito critério. Isso, somado à correria cotidiana e ao desejo de não sofrer para manter a casa em ordem, me levou a tomar a decisão de fechar as portas do botequim.
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Vou, porém, continuar atendendo em outro endereço. Um blog que leva o meu nome – porque não quero mais falar em nome do Brasil (e confesso que andava com essa má impressão quando acessava o Pátria). Continuarei escrevendo sobre as mesmas coisas. A diferença, porém, é que vou começar com serenidade, cuidando da qualidade do que for publicado, atentando para textos mais curtos e precisos, valorizando mais as histórias de botequim, o samba e os temas que realmente interessam ao País. Não quero mais carregar o peso dos arquivos antigos nas costas. O ritmo na atualização será menos intenso, mas quero que os textos sejam mais interessantes.
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Portanto, esqueçam o que passou e atualizem suas listas. O Pátria Futebol Clube se despede, sem glórias, e de hoje em diante vocês me encontram no blog Bruno Ribeiro. Espero vê-los por lá, o botequim já está funcionando:
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Obrigado pela preferência!

Domingo, Maio 25, 2008

O SAMBA DE LUTO

Silêncio de um minuto, por favor. Morreu o sambista Darcy da Mangueira. Por conta da correria e outros problemas de ordem técnica, não tive tempo de registrar seu passamento na noite de segunda-feira, dia 19. Darcy lutava bravaemente contra o câncer, mas a doença foi mais forte e venceu a refrega. Seu Darcy não era, nunca foi, um sambista muito conhecido fora do universo do samba. Dentro dele, porém, foi um grande. Eu me lembro de uma roda de samba que presenciei no Carnaval de 1998, na antiga e original Casa da Mãe Joana, em São Cristóvão, glorioso bairro imperial que me viu nascer. E me lembro que foi nesta roda que ouvi Darcy da Mangueira cantando um samba-enredo de tamanha beleza que, naquele momento, nada era mais importante do que escutá-lo e, sinceramente comovido, chorar. Dez anos depois e o samba cantado por Darcy continua assentado em algum canto de minha memória. Apesar de levar a Mangueira no nome, o compositor começou na Unidos da Tijuca, escola da qual foi um dos fundadores. Nascido no morro da Formiga, este nobre tijucano foi um dos primeiros a levar para o samba-enredo a temática do negro e de suas lutas. Portanto, todo o mérito do mundo à Tijuca, que deu ao Carnaval carioca duas escolas combativas e pioneiras: Unidos da Tijuca e o meu querido Salgueiro, orgulhos da negritude na avenida. Eu queria encontrar uma maneira de terminar a modesta homenagem com um samba de Darcy. E qual não foi minha surpresa quando entrei no blog do André, o excelente O Couro do Cabrito, e me deparei com o samba-enredo que eu buscava desde 1998! Tomado de grande emoção, recomendo que vocês ouçam (ao final da leitura) O Negro na Senzala, de autoria de mestre Darcy da Mangueira, interpretado pelo próprio. Faço minhas as palavras do André: trata-se de um dos sambas-enredos mais bonitos da história. Só Luiz Antônio Simas poderá confirmar ou desmentir. Eu, porém, assim o considero. Com este samba, a Unidos da Tijuca terminou injustamente na 11ª colocação no Carnaval de 1958. A campeã daquele ano foi a Portela.
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Sexta-feira, Maio 23, 2008

HELENIRA

Fiquei muito feliz com o comentário que o querido Nei Lopes, um dos sambistas e intelectuais deste país, fez de meu livro Helenira Resende e a Guerrilha do Araguaia, em seu lote. Obrigado, tio Nei, pela citação! Não deixem de ler clicando aqui: Lei Áurea, Bossa Nova e Araguaia.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

IMPERDÍVEL

Caros,
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amanhã (terça) e depois (quarta), o Núcleo de Samba Cupinzeiro apresenta, no teatro do Centro de Convivência, às 20h, o espetáculo Samba Paulista, Sim Senhor!, com direção artística de Jesser de Sousa e cenário de Adriana Frias.
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O repertório do show está impecável. Vai desde as raizes mais profundas do samba paulista - através do canto dos escravos das fazendas de café do barão Geraldo de Rezende, em Campinas -, passando pelos fundadores do samba urbano na paulicéia, como Oswaldo Arouche, Toniquinho Batuqueiro e Geraldo Filme. Há espaço para o "lado B" de Adoniran Barbosa e canções menos conhecidas na discografia de Paulo Vanzolini, Osvaldinho da Cuíca e Eduardo Gudin.
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O roteiro inclui ainda as canções assinadas pelo próprio grupo e também deste que vos escreve, com muita honra. O show aliás, costuma ser aberto com Lamento Negro, letra minha sobre música de Edu de Maria. O CD estará à venda no local, mas o melhor de tudo é que O SHOW É GRÁTIS.
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Isso mesmo: ninguém paga nada! Basta chegar com meia hora de antecedência e retirar o ingresso na bilheteria do teatro!
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Para quem não sabe, o endereço é:
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TEATRO DO CENTRO DE CONVIVÊNCIA CULTURAL
PRAÇA IMPRENSA FLUMINENSE, S/N - CAMBUÍ - CAMPINAS
HORÁRIO: 20H

Sábado, Maio 17, 2008

SIMONAL

Polêmico até os dias de hoje, o tema Wilson Simonal virou um documentário que está para estrear nos cinemas. No final dos anos 60, era o maior cantor do Brasil. Ou, pelo menos, o mais popular, depois de Roberto Carlos. Aí começaram a surgir denúncias e insinuações de que ele seria informante da ditadura, delator, dedo-de-seta. Que por sua culpa alguns companheiros da classe artística, com posições claramente contrárias ao regime militar, teriam caído nas mãos da polícia política do Estado e sofrido à vera em terríveis sessões de tortura. Nunca se provou nada contra Simonal. Mas também nunca conseguiram inocentá-lo. O fato é que Simonal desapareceu da noite para o dia. De grande ídolo das massas transformou-se num pária, ofendido, abandonado e boicotado pela mídia, pelos artistas e pelas gravadoras. Até hoje não se sabe o que houve, mas o filme parece, no mínimo, interessante.
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Sexta-feira, Maio 16, 2008

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Caros,
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estarei sem tempo de atualizar o blog nos próximos dias. Contentem-se com os arquivos enquanto isso. Volto assim que possível.
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Obrigado!

Segunda-feira, Maio 12, 2008

O berimbau e o mito da burrice baiana

E amanhã lembraremos a Abolição da Escravatura. Mas a Lei Áurea foi uma farsa. Ela serviu apenas para evitar a revolução negra, que estava prestes a explodir. Não vou, portanto, louvar a Princesa Isabel, que essa não merece elogios. O Brasil não pagou sua dívida pelo crime da escravidão e abandonou os negros à própria sorte. Empurrados para as favelas, continuaram marginalizados e tiveram de reconstruir na miséria a sua dignidade. Não pode haver liberdade sem reparação moral.
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Mas, derivo. Não era exatamente da abolição que eu queria falar. Quero falar do berimbau. É que o professor Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), deu uma infeliz declaração. Para justificar o baixo rendimento dos alunos de sua faculdade, disse que a culpa era do "baixo QI (quociente de inteligência) dos baianos". Afirmou o biltre que a "pouca capacidade intelectual é hereditária e verificada por quem convive com pessoas nascidas na Bahia". E, para completar tamanho absurdo, ironizou o instrumento símbolo de sua própria cultura: "O baiano toca berimbau porque só tem uma corda; se tivesse mais, não conseguiria".
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Citei os escravos para dar uma resposta ao preconceituoso Antônio Dantas. Ao contrário do que muitos pensam, os negros não aceitaram pacificamente o cativeiro. A história brasileira está repleta de rebeliões escravas. Os exemplos mais conhecidos são os quilombos – comunidades organizadas pelos negros fugitivos em locais de difícil acesso. O maior deles resistiu no século 17, em Pernambuco, na região de Palmares. Era uma espécie de Estado africano governado por Ganga Zumba e, depois, por Zumbi. Foi Palmares o berço das primeiras manifestações da Capoeira.
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Sei que divago, mas os leitores hão de entender onde quero chegar. Hoje, a Capoeira é praticada apenas para preservar as tradições; mas no passado não era assim. Desenvolvida para ser uma defesa, foi ensinada aos negros cativos por aqueles que eram capturados e voltavam aos engenhos. Com a intenção de não levantar suspeitas, os movimentos da luta foram adaptados à música, para que parecessem uma dança. Assim como no Candomblé, plena de segredos, a Capoeira nasceu como forma de resistência. É para ser praticada por quem tem agilidade e coragem.
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Dizia Mestre Pastinha (1889 – 1981) que a Capoeira era, antes de tudo, "uma luta violenta". Seus golpes não deixam espaço para meio termo: ou joga-se Capoeira "para valer", arcando com suas sérias conseqüências, ou apenas simula-se um jogo. Por isso é impossível enquadrá-la em regras esportivas. Quem classifica a Capoeira como esporte é leviano ou não a conhece de fato. E nem adianta gastar papel com teorias acadêmicas: qualquer capoeirista sabe que não se pode ensinar malícia e mandinga. A ginga de corpo que engana o adversário, o faz que vai e não vai, torna tudo perigoso ao desafiante ingênuo. É que malandragem não se aprende na escola.
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Mas falemos do berimbau. O instrumento "para quem não tem muitos neurônios", segundo o escroque Antônio Dantas. Usado inicialmente por vendedores ambulantes, o berimbau tornou-se a alma da Capoeira. Ele conduz o jogo com seu timbre peculiar. Seus ritmos são em compasso binário e os andamentos – lento, moderado e rápido – são indicados por diferentes vibrações no arame. Entre os toques mais conhecidos estão São Bento Grande, São Bento Pequeno, Angola, Benguela, Santa Maria, Amazonas, Iuna (meu preferido, que imita o canto do pássaro e é tocado na morte de um capoeirista) e Cavalaria (servia para denunciar a chegada da polícia).
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O jogo é composto por três berimbaus: um grave, um médio e um agudo. O grave leva o nome de Gunga e comanda a roda. Na tradição africana, o Gunga dá o início e põe fim ao jogo. É o maestro e a autoridade do ritual da Capoeira. Antes de jogarem, os capoeiristas se curvam ao pé do berimbau e pedem sua benção. É também o Gunga que determina o toque a ser seguido pelos demais berimbaus. O médio marca o ritmo, enquanto o agudo faz essencialmente as "viradas". Não se deixem enganar pela única corda. O berimbau tem uma técnica complexa e uma mística que deve ser respeitada.
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Ao tentar diminuir a inteligência do povo baiano – que gerou personalidades e pensadores como Luiz Gama, Castro Alves, Jorge Amado, Glauber Rocha, Dorival Caymmi, Batatinha, Milton Santos, Maurício Grabois, Mãe Senhora e Mestre Pastinha – o abjeto professor Antônio Dantas ofendeu a todos os brasileiros. E ao desqualificar a importância do berimbau, conseguiu provar que sua tese – a da burrice baiana – pode ser aplicada apenas a si mesmo.

Sábado, Maio 10, 2008

O COMANDANTE DO MERCADO

Ontem recebo um telefonema no jornal. Do outro lado da linha, Wilson Garcia, o Pachola. Com aquela voz agudíssima - uma voz que parece estar sempre cantando - pergunta, ingenuamente, como se eu pudesse não saber:
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- Adivinha quem está falando?
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Pachola foi - de certa forma ainda é - o mais popular dono de botequim de Campinas. Durante as muitas décadas que comandou o Bar do Pachola - botequim pé-sujo que herdou do tio (aliás, herdou também o apelido) - fez daquele pequeno cubículo cravado na entrada do Mercado Municipal um dos pontos fundamentais da cidade. Fundado em 1908, pela espanhola Maria Garcia, teve depois dela apenas tio e sobrinho como proprietários. Era, portanto, um bar familiar que havia passado por minúsculas mudanças desde a década de 40, quando sofreu - por exigência da Prefeitura - sua única e, até então, definitiva reforma.
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O Bar do Pachola que conheci (este da foto abaixo!), portanto, era uma espécie de museu. Sei que estou me alongando na história, mas a divagação é importante para que vocês entendam a magnitude deste botequim e a mística que envolve seus proprietários. Pois bem, o Pachola era uma espécie de museu que comportava a alma da cidade, dos vivos e dos mortos, da história lanhada nas paredes, dos azulejos engordurados, das mesinhas de alumínio vagabundo, das garrafas de cachaça caseira decorando as prateleiras, dos vidros de pimenta multicoloridos, dos muitos cotovelos que dividiam democraticamente (e sabe lá Deus como) o balcão mais estreito que já houve.
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Assim que ouvi a voz do Pachola do outro lado da linha, mil lembranças vieram-me à mente. Das rodas de samba que fazíamos aos sábados, das 11h até às 18h - depois o Mercado descia as portas e continuávamos bebendo lá dentro, até esgotarem-se as disposições de toda a corja. Os músicos ocupavam praticamente metade do bar e muitos fregueses improvisavam mesinhas do lado de fora, usando engradados vazios de cerveja para sentar e apoiar os pratos. Lembro-me dos sambistas que participaram da roda com a gente: Nelson Sargento, Monarco, Walter Alfaiate, Luiz Carlos da Vila, Nei Lopes, Wilson Moreira, Moacyr Luz. A notícia de que havia um boteco assim corria de boca em boca.
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Vale também citar a qualidade da comida. A santa Marilda, mulher do Pachola, passava as manhãs e as tardes na cozinha (a cozinha era um fogão atrás de um biombo) preparando de tudo um pouco. Aos sábados era certeza que podíamos optar entre a feijoada e a dobradinha, entre a rabada e o bacalhau. Isso sem falar nas entradas, que comíamos com devoção antes de começar a roda: o Pachola trazia, com a insistência de um garçom de churrascaria, pratinhos de língua no molho, de lingüiça, de jiló com cebola, de chouriço, de batatinhas no vinagre, de sardinhas fritas... Ah, não posso com tanta saudade! E havia, além de tudo, um clima de unidade, um sentimento de nação que nunca mais pude sentir em outros lugares. Espero que vocês compreendam: dentro do Bar do Pachola era como estar num pequeno Brasil que deu certo. Era todo mundo no mesmo barco: preto, branco, amarelo, pobre, rico, velho, moço, homem, mulher, cachorro vira-lata. E era todo mundo no maior respeito. Presenciei abraços, lágrimas, confissões que não vale a pena descrever para não quebrar o encanto do momento.
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Pois assim era o Bar do Pachola. Que nunca mais foi o mesmo desde que o Wilson Garcia se mudou para Catalão, em Goiás, por razões pessoais que não quero expor aqui. Acontece que me dói demais falar sobre isso, mas o fato é que o bar foi vendido para uma pessoa que não sabia nada da história de Campinas e do Mercado, quanto mais do ponto que estava comprando! Dizem que o sujeito era do ramo. Mas não pode ser do ramo quem faz o que ele fez com um boteco que era tombado (extra-oficialmente) pela população. A primeira medida foi arrancar o piso ancestral de pedrinhas portuguesas, os azulejos, o velho balcão... Dar um fim nas mesinhas de alumínio (em seu lugar colocar bancos de lanchonete), jogar fora as cachaças e as pimentas caseiras ("a ordem foi da vigilância sanitária"), mudar o cardápio, subir o preço da cerveja, tornar o ambiente um lugar mais parecido com o banheiro de qualquer rodoviária. Cada vez que passo diante do bar é uma facada que tomo no peito. Por isso, quando vou ao Mercado, entro pela porta dos fundos, para não sofrer demasiado.
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Agora sim, voltemos ao telefonema. Pachola está em Campinas. Veio resolver uns problemas de banco ou coisa do tipo. E quer que eu vá almoçar com ele. Prontamente aceito, saudoso que estou do homem que me ensinou a amar o botequim. Ele quer almoçar no próprio Mercado e diz:
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- Vamos almoçar no boteco. Já me falaram que está mudado, mas tudo bem. Vamos encarar.
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Tentei demovê-lo da idéia:
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- Meu velho, essa não é uma boa idéia. Vamos pensar em outro lugar.
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Não consegui convencê-lo. Encontro o Pachola em frente à banca de alho, tomando uma Caracu na pastelaria. O baixinho continua elegante como sempre: os cabelos brancos jogados pra trás, com brilhantina (ele diz que não usa brilhantina, mas eu quero que seja assim); a camisa amarela de botão, o colete marrom por cima, os sapatos de bico fino envernizados e o eterno Parliament pendendo do canto da boca. É a única pessoa do mundo capaz de conversar, comer e beber sem tirar o cigarro da boca.
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Depois da troca de abraços e do brinde com cerveja preta, fomos almoçar. Ainda o adverti de que iríamos ter um almoço melancólico, mas o velho é teimoso. No caminho, vi com estes olhos que a terra há de comer, dois ou três comerciantes do Mercado passar por nós e bater continência para o Pachola. Outros só faltavam pular em seu pescoço, pedir para tirar uma foto... A japonesa do box de verduras quase chorou quando o viu novamente caminhando pelos corredores estreitos do prédio. Outra mulher, a gaúcha do mate, trouxe o filho pequeno: "Olha, guri, este aqui é o Pachola, de quem falam tanto". Por onde ele passava, ia arrastando olhares e apertando mãos, como um artista de cinema. Aposto e ganho que nem um ator global de novela causaria tanto rebuliço no Mercado Municipal de Campinas.
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Depois de meia hora de efusivas demonstrações de carinho - ele parecia um político em campanha - conseguimos chegar ao Bar do Pachola, que ainda mantém, abjetamente, o mesmo nome. Pachola parou diante da porta, em silêncio. Olhou para a assepsia geral do ambiente, para a brancura quase hospitalar do recinto (percebam a foto à esq.!) e, resignado, entrou. Entrei também, um tanto quanto contrariado. Entrei por ele e só por ele. Foi então que o Pachola, pela primeira vez em 50 anos, não foi reconhecido dentro do Mercadão. Escorou-se na ponta do balcão para pedir uma cerveja, quando a mulher (não sei se dona ou gerente da bodega), segurando um PF de strogonoff, disse secamente:
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- Não pode fumar aqui dentro na hora do almoço, senhor!
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Disse isso, virou as costas para nós e foi para a cozinha, buscar alguma coisa.
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Com a altivez de um comandante, Pachola me pegou pelo braço e, pleno de dignidade, me levou de volta à pastelaria. Onde comemos uma divina porção de torresmos. Sim, torresmos!
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PS - O Mercadão completou, recentemente, 100 anos. Veja fotos do meu ponto preferido em Campinas. No blog da minha colega de ofício, Marina Avancini. É só clicar aqui.

Quinta-feira, Maio 08, 2008

VILA UNIÃO

Cena de uma das melhores rodas de samba de Campinas. Domingo à noite, na Vila União.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

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Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
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[Hilda Hilst]

Sábado, Maio 03, 2008

SAUDADE

Dos meus muitos defeitos, tenho dois de que me gabo e me orgulho: ser passional e nostálgico. Não que sejam exatamente defeitos. Nós, que somos assim, não vemos dessa forma. Mas para a maioria das pessoas desse mundo extremamente racionalista e prático, amar demais e sentir saudade não são qualidades que enobrecem um homem ou ajudem na corrida do ouro - aquela que cobra sangue frio e um certo egoísmo na hora de tomar decisões.
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A respeito da nostalgia cabe aqui uma explicação. Jamais ouvirão de minha boca a clássica frase do velho reacionário: "No meu tempo era melhor..." Isso não! Não é dessa saudade que falo, posto que não vivo do passado. Acontece que sou um eterno inconformado com as coisas boas que se perdem e que se vão, como se nunca tivessem existido na vida da gente. Simplesmente não consigo lidar com as mudanças que nos afastam uns dos outros e nos impõe uma nova realidade a ser construída. Gosto do meu tempo, das minhas namoradas, dos meus amigos, do meu país, da minha cidade, da minha rua... E gosto de preservar tudo isso, de modo que não sou uma pessoa que sinta a necessidade de viajar, de trocar de emprego ou de casa. Sou, portanto, um tipo de homem que não tem nada de contemporâneo - embora jovem e para sempre jovem (no melhor sentido do termo).
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Sou também um insatisfeito com as geografias. Neste exato momento, em que o vento frio de Campinas lambe a copa das árvores da rua Tiradentes e me traz um desejo doído de estar entre os meus, em confortável silêncio (em um silêncio quase religioso) penso nas distâncias que nos separam. Na vida que acontece longe dos meus olhos, nas pessoas que seguem seu rumo longe dos meus braços, nas pequenas felicidades que agora estão sendo compartilhadas sem o meu conhecimento, na doce tristeza que não está sendo dividida comigo porque me separa o abismo das horas e das estradas, das pontes e dos túneis... Penso nas obrigações que nos afastam irremediavelmente, sepultando o futuro. Sinto, neste exato momento, a dor da grande privação: do amor de uma mulher que se perdeu por besteira; do amigo que agora, quem sabe, vaga por uma cidade qualquer, imaginando talvez que pudesse ter um amigo como eu para dividir uma conta no botequim ou uma angústia inconfessável.
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Peço desculpas por não ter dito "Eu te amo" na hora certa, minha querida. Por não ter sido seu melhor amigo, meu pai.
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Sinto hoje saudade de tudo. Uma saudade (estou com os olhos marejados) de Darcy Ribeiro, o maior dos brasileiros. Saudade de abrir a janela de meu quarto pela manhã e, para além da neblina poluída de São Paulo, divisar a possibilidade de uma Roma Tropical, habitada por uma gente de pele morena e um destino estupendo. Saudade da serena esperança e da certeza de poder contar com o professor Darcy. Com seus cabelos rebeldes, nos dizendo: "Podemos! Somos possíveis!".
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A saudade que sinto hoje, meus queridos, é de todos vocês. Das pessoas que passaram pela minha vida e das que moram longe de mim. Das que estão presentes, mas moram há centenas de milhas; das mulheres que deixei de amar de repente, num romper de maio ou junho; das cidades que conhecem minhas pegadas, mas não me têm; dos balcões que traziam minhas digitais e desapareceram por culpa da especulação imobiliária; dos poetas que se foram muito cedo sem deixar uma obra; dos gols que deixei de fazer por incompetência ou distração; dos campeonatos que meu time poderia ter conquistado. Saudade do país que poderíamos ter sido. Do filho que não tive e não terei com cada namorada de olhos profundos que me confessou (em mudo desespero) uma dor que fiz de tudo para assumir como minha - mas fracassei. Sinto saudade do tempo petrificado ao lado de quem sente a mesma saudade. E a tristeza de não poder, ó minha vida, estar plenamente integrado à ti, posto que há tantos iguais separados por quilômetros de terra e mar.
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Há tanta miséria e tanta separação, meu Deus...
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Eu queria que o mundo fosse do tamanho de uma varanda de subúrbio, enfeitada de samambaias e espadas-de-São-Jorge. Uma varanda que abrigasse todas as pessoas de bom coração, com seus defeitos celebrados respeitosamente e suas solidões comungadas entre copos, risos e violas. Uma que protegesse a todos nós com sua sombra amena, por mais de mil anos, próxima ao roseiral. Uma varanda branca, morada de Oxalá, de onde pudessemos ver passar um velho rancho com seus estandartes atemporais. O rancho do bem-querer.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Cenas de um belo domingo

A cidade de Campinas estava em polvorosa no domingo, devido a final do Campeonato Paulista entre Ponte Preta x Palmeiras, de modo que metade da população tirou o dia para beber de maneira imunda. Eu, que sou bugrino mas não dispenso um bom futebol, também resolvi abrir os trabalhos logo cedo. Mas por uma razão maior, visto que o amigo Moacyr Luz, depois do show de sábado, que fez no Tonico´s Boteco, tirou o dia seguinte para bater perna pelos botequins campineiros que eu, modéstia à parte (e em se tratando de Moacyr, que conhece de boteco, é uma honra), lhe apresento há coisa de seis ou sete anos, em intervalos de tempo cada vez menores. Dessa vez optamos, sabiamente, por ficar em um único lugar até a hora do almoço: a mercearia Juema, do português Manuel, na rua Santos Dumont.
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Como de praxe, começamos às onze da manhã tomando a primeira de uma série de garrafas de Original e comendo algumas sardinhas à escabeche, iguarias para se comer rezando. Iguais a esta, mas muito mais apetitosas do que na foto feita pelo Giba:
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Na mesa forte, também estava Paulo Henrique, dono do Tonico´s. O Paulo é um dono de bar que merecerá sempre meus elogios enquanto mantiver o cuidado e o respeito para com as coisas de nossa terra, incluindo aí a tradição de se freqüentar os botequins que realmente valem a pena, deixando para quem não sabe nada o péssimo hábito de alimentar os empreendimentos cada vez mais formais e distantes do que acreditamos ser o espírito do botequim. Sendo assim, acompanhado desse time, não teria como dar errado o meu domingo.
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O saldo da primeira parte do encontro foi o seguinte (e atentem para o detalhe de que ainda não era o almoço):
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10 garrafas de Original
2 doses de cachaça branca
1 dose de underberg
2 doses de ginginha
1 batida de limão
4 sardinhas à escabeche
2 porções de alheira
1 porção de torresminho
1 porção de chouriço
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Lá pelas duas da tarde, todos já bastante emocionados - e é curioso constatar que meus amigos, quando bêbados, jamais ficam chatos agressivos ou grudentos, mas sempre emotivos ao ponto de derramar lágrimas sinceras - despencamos para a casa do Amaury, próximo ao estádio da Macaca, de onde, em meio ao espocar de rojões e ao som de um samba da melhor qualidade, demos continuidade aos trabalhos iniciados pela manhã.
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A cena abaixo não deixa dúvidas quanto ao estado etílico da corja. Moacyr interpreta - acompanhado pelo maestro Adriano Dias, meu violonista preferido - um samba inédito e desconhecido, feito especialmente para o presidente Lula, quando de sua recente viagem para a Holanda, junto à comitiva presidencial. Mais sobre esta apresentação, que contou aliás com o craque do violão de sete Tiago Prata, pode ser lido no blog do Eduardo Goldenberg aqui e aqui.
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Reparem na dificuldade do Giba em segurar a câmera em linha reta. Não sei de quem é o gravador que aparece insistentemente na boca do Moa. Pra dizer a verdade, ninguém se lembra de muita coisa. É por isso que o anfitrião Amaury toma sempre a sábia decisão de registrar os almoços em sua agradável residência - ele é o sujeito da boina, com a filmadora permanentemente em punho. Há pelo menos 10 anos que ele deve estar com a filmadora nesta posição, o que lhe assegurará um lugar de destaque entre os grandes documentaristas da cidade. O careca batucando no tampo da viola é Serginho Moraes, ex-jogador da Ponte e dono de histórias de antologia - prometo contar algumas por aqui.
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Por hora deixo-lhes com este belo momento de exacerbada bebedeira e amizade, avisando que parto para o Rio de Janeiro na próxima quarta-feira e de onde volto apenas no sábado. Cuidem, portanto, bem deste boteco.
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Sexta-feira, Abril 25, 2008

João Saldanha - da série Grandes Brasileiros

Pior para os fatos; porque as verdades do Saldanha era muito melhores (Nelson Rodrigues)
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João Saldanha foi, para mim, o maior nome do futebol brasileiro de todos os tempos e o continua sendo, 18 anos depois de sua morte. Curioso que o meu grande ídolo no esporte não tenha sido um jogador, mas um técnico.
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Mas João encarnava, dentro e fora dos estádios, o espírito brasileiro que mora nas profundezas de nossa identidade coletiva. Era um homem, não um mero profissional. E deixava transbordar sua personalidade nas entrevistas e no caráter dos próprios times que dirigia.
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Foi o mais polêmico e, ao mesmo tempo, o mais querido dos treinadores que comandaram a Seleção Brasileira. Sua biografia Uma Vida em Jogo (Cia Editora Nacional, 550 páginas, R$ 55), escrita por André Iki Siqueira, é uma das coisas mais divertidas e sérias que li nos últimos anos.
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Eu recomendo, sobretudo, para pessoas que não gostam de futebol. Leiam comentário do jornal Zero Hora sobre o livro [clicando aqui]. No amor de João Saldanha pelo Botafogo está o segredo da maior e mais irracional das paixões. Impossível não se apaixonar também pelo futebol, depois de mergulhar na vida deste que não foi apenas um treinador durão, mas também jornalista esportivo, correspondente de guerra na Europa, analista de escola de samba e comunista notório - cortado, pelo governo militar, do comando da Seleção Canarinho pouco antes do embarque para a Copa do México, em 70.
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Algumas passagens de Saldanha, retiradas de algumas de suas deliciosas entrevistas:
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"Eu partia do princípio que o futebol brasileiro não tem interesse em agredir ninguém. Nós somos capazes de fazer uma partida de futebol sem um pontapé, sem uma deslealdade. Mas, em 1970, o futebol europeu estava numa fase de grande violência, particularmente nos casos de Alemanha, Escócia e Itália. E eu disse isso a eles. Eu os adverti que a Copa não terminaria se nosso time fosse agredido. Nós não daríamos a primeira, mas amassaríamos a Taça se eles começassem a bater"
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"Não há mal nenhum que o futebol faça parte da política. A política é a vida. O jogador de futebol, o dirigente de futebol, tem todo o direito de entrar na vida política e partidária. Porque política todo mundo faz"
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"Certo dia, eu entrando no Maracanã, um colega de profissão me perguntou se eu estava indo ver o jogo. Respondi: ' Não, vim visitar o Museu do Índio'. Outro, quando eu estava dentro do campo, perguntou: ' Gostou da grama?'. E eu: ' Espera aí, meu chapa, ainda não provei'"
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"Critiquei o Telê por achar sua declaração infeliz. Dizer que o povo brasileiro deixa de comer para ir ao futebol nãoé verdade. Achei aquilo injusto e me parecia, em última análise, que se colocava o povo como alienado dos problemas nacionais, políticos e econômicos"
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Saldanha morreu na Itália, com a máquina de escrever no colo, quando cobria a Copa do Mundo de 1990. No vídeo abaixo, o treinador explica porquê não convocava jogadores cabeludos:
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Quarta-feira, Abril 23, 2008

23 de abril


Ogum iê!

...

Em 1654, os pernambucanos expulsaram os holandeses
Que aqui estavam a roubar o nosso açúcar
– E fizeram a sua revolução.
Entre os bravos guerreiros
Estavam os índios de Felipe Camarão.
Índios de pele morena e cabelos pretos
Pretos, pretinhos
Iguais aos teus
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E quando os índios corriam empunhando bordunas
Seus cabelos varriam o vento:
Depois da guerra, banho de cachoeira.
Que linda herança a História lhe deu!
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Dormes,
E eu abro a janela do teu quarto de estudante
350 anos depois de Guararapes
E o brilho que a noite dá
Ao teu corpo de amazona
Repousado na praia branca da tua cama
Faz com que eu sinta pelo Brasil
Um estranho tipo de desejo carnal.
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Não sei,
Mas vendo-a dormir, morena e nua,
Sinto-me o invasor
Perante a resistência.
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Se o estupro lhe deu
Esta pele de fruta tropical
E este sobrenome europeu
Não é a mim que deves condenar.
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Existo para o amor insolente
Para irritar-lhe um pouco
E beijar-lhe a boca.
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Do que lhe deixou o inimigo
Ficastes com o lado bom – que foi dar na brasileira.
Para os agressores, nem um tantinho assim.
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Já para mim,
Tua alma e teu corpo inteiro.
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[Bruno Ribeiro]